Dr. Marco César Jorge dos Santos

20/03/2012

Em 17 de junho de 2011, a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou, através da Consulta Pública n° 30, um regulamento técnico que estabelece os requisitos mínimos necessários ao funcionamento de serviços que realizam procedimentos endoscópicos com via de acesso ao organismo por orifícios exclusivamente naturais. Preocupada com os desconfortos que estas mudanças poderiam causar aos otorrinolaringologistas, a ABORL-CCF criou a Comissão de Desinfecção de Ópticas, a fim de desenvolver um procedimento de operação padrão para a desinfecção de ópticas e equipamentos utilizados nos exames endoscópicos realizados nos consultórios. Conversamos sobre este importante assunto com o Dr. Marco César Jorge dos Santos, coordenador da comissão. Confira!

Quais são os modelos atuais seguidos para o processo de limpeza e esterilização dos equipamentos e instrumentais utilizados nos procedimentos endoscópicos?

MARCO CÉSAR: Os protocolos mundiais seguidos hoje para esterilização ou desinfecção de ópticas, assim como materiais usados na assistência à saúde, vêm sendo elaborados e recomendados por um consenso do Guideline of Centers for Disease Control and Prevention e da Association of Operating Room Nurse nos Estados Unidos. No Brasil, o Ministério da Saúde e a ANVISA seguem, além destes dois protocolos, o da Associação Paulista de Estudos e Controles de Infecção Hospitalar. A desinfecção segura de materiais de uso clínico de baixa complexidade e de baixa invasividade, ou seja, de baixa criticidade, através do método de limpeza - que é o processo de remoção da sujidade realizado com água corrente potável, detergente biodegradável neutro enzimático ou não, através de fricção manual com uso de uma escova de cerdas firmes e macias e o uso associado de álcool 70% P/V - vem sendo estudada no mundo inteiro. É necessária, porém, uma pesquisa rigorosa a fim de gerar evidências fortes e seguras, para que novos protocolos mundiais sejam elaborados.

O que impõe as novas regras da ANVISA quanto aos exames de videonasolaringoscopia?

MC: Baseados nesta Resolução da Diretoria Colegiada, os videonasolaringoscópios são classificados como acessórios semi-críticos, ou seja, que requerem desinfecção de alto nível para o seu uso, mesmo não sendo considerados como produtos para saúde de conformação complexa (produtos que possuem lúmen).

Quais os projetos da ABORL-CCF para atender a esta questão?

MC: A ABORL-CCF vem tratando deste assunto com muita seriedade e com uma atenção toda especial, pois esta situação pode, sim, causar muito desconforto para todos nós. No final do ano passado, estivemos na ANVISA, em Brasília, e fomos muito bem recebidos pelos diretores envolvidos nesta RDC (Resolução de Diretoria Colegiada), que nos explicaram todos os trâmites técnicos e legais desta resolução. Foi com a ajuda do Prof. Dr. Luiz Carlos da Fonseca e Silva, diretor da ANVISA, que iniciamos os nossos trabalhos. Por se tratar de um assunto que envolve muita experiência e conhecimento no assunto, a ABORL-CCF foi buscar a assessoria de uma das professoras mais respeitadas no país neste assunto de manejo de materiais médicos na área de saúde, a Profa. Dra. Kazuko Uchikawa Graziano, professora titular do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgico da Escola de Enfermagem da USP. A professora Kazuko está desenvolvendo um projeto de pesquisa que demonstra cientificamente que o equipamento de videonasolaringoscopia, rígido ou flexível, possa passar por um processo de limpeza e desinfecção de nível intermediário, não necessitando assim de desinfecção de alto nível, para sua reutilização. O projeto de pesquisa chamado Protocolo de Operação Padrão (POP) já foi elaborado e encontra-se em avaliação técnica e administrativa para iniciarmos os trabalhos.

A Comissão de Desinfecção de Ópticas foi criada para atender a este assunto? Quais são os objetivos desta comissão?

MC: Estamos atentos à questão, e, por isto, o presidente da nossa Associação, Dr. Marcelo Hueb, criou a comissão para coordenação destes trabalhos. Ficou denominada Comissão de Desinfecção de Ópticas e é composta pelos Drs. Luciano Neves, Márcio Nakanishi, Leonardo Sá, Fabrízio Romano e Marco César Jorge dos Santos. A comissão trata especificamente desta questão e envolve todos estes assuntos, e, a partir disto, o nosso presidente criou condições para que colegas associados possam participar. Ele designou que o objetivo principal seja a comprovação científica da eficácia deste método de desinfecção, dando assim respaldo para que os otorrinolaringologistas possam realizar seus exames endoscópicos ambulatoriais com a segurança para o paciente da forma como sempre foram feitos.

E quais serão os passos seguintes após esta avaliação?

MC: Após a conclusão destes estudos, que terão a supervisão e assessoria da professora Kazuko, será desenvolvido o Protocolo de Operação Padrão (POP) no qual serão detalhadas todas as etapas do processamento de equipamentos e acessórios instrumentais utilizados nos procedimentos endoscópicos.

Esta questão envolve diretamente o trabalho de todos os otorrinos. Como os interessados podem tirar dúvidas e apoiar esta causa?

MC: Estaremos à disposição na ABORL-CCF e esperamos demonstrar os resultados deste projeto em breve. Os associados poderão ainda participar ativamente das palestras e esclarecer eventuais dúvidas durante o nosso congresso Brasileiro de ORL em Recife, que contará com a participação do Dr. Luiz Carlos e da professora Kazuko.

 

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