Dr. José Eduardo Lutaif Dolci

14/01/2011

- Primeiramente, Dr. Dolci, gostaria que falasse sobre sua trajetória na otorrinolaringologia até chegar à presidência da ABORL-CCF

Dr. José Eduardo Lutaif Dolci: Sou Professor Titular e Chefe do Departamento de Otorrinolaringologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, e estou desde 1973 na Santa Casa. Fiz faculdade e residência lá, e depois fiquei 16 anos trabalhando como voluntário no Departamento de ORL. Após a mudança de chefia, fui contratado no ano de 1998. Em 2005 me tornei chefe do Departamento de ORL, cargo que exerço até hoje. Em 2009, fui aprovado no concurso para Professor Titular da Faculdade de Ciência Médicas da Santa Casa de São Paulo.

- Quais serão os primeiros planos da sua administração?

JELD: É importante falar, antes de tudo, que esta será uma administração de três anos, que começará comigo, mas que tem o apoio e a anuência em todas as discussões dos outros dois colegas que darão sequência a esta gestão compartilhada, Dr. Marcelo Hueb e o Dr. Agricio Crespo, com quem divido todas as questões para que possamos fazer verdadeiramente uma gestão de continuidade de projetos e efetivas realizações.

Bom, entre as primeiras metas para a minha gestão, está o plano de fortalecer as sociedades regionais e estaduais, de forma a dar a elas condições, seja através de suporte logístico ou de recursos financeiros, para que possam trabalhar em prol do avanço da ORL nos seus estados. Estes congressos regionais, como o Norte e Nordeste, Centro Brasileiro, precisam ser protagonizados pelos médicos desses locais, que conhecem os problemas e os potenciais da sua região. Precisamos dar chance para eles aparecerem. Esta questão está entre as nossas principais metas e inclusive foi amplamente discutida na Reunião do Conselho.

Também pretendemos avançar ainda mais nas negociações para melhor remuneração dos médicos e tentar estabelecer um valor padrão único de consulta com os convênios, como já acontece em várias outras especialidades, que conseguiram esta negociação. Tentaremos conseguir uma uniformidade de valores de consulta, já que, devido a grande oferta em alguns lugares, existem médicos recebendo R$ 10 por uma consulta em centros muito populosos. Isso é inaceitável.

Outra importante meta, que posso considerar a "menina dos olhos" de nossa administração é um projeto que está pré-acertado para conseguirmos a efetivação do quarto ano de residência médica em Otorrinolaringologia. Posso adiantar que já existe um pré-acordo, muito bem encaminhado com um patrocinador importante que está disposto a viabilizar, através de uma Educação Médica Continuada, a abertura de um R4 para cada serviço classificado como A nos próximos anos. Isto é de enorme importância, porque nós vamos criar uma "jurisprudência" para que possamos mostrar para os médicos e para as instituições reguladoras, em termos de educação e cultura, que a necessidade da R4 na ORL já passou do tempo. Pretendemos mostrar, por meio de uma ação própria, que estamos assumindo um compromisso de ampliar a especialização do otorrinolaringologista, oferecendo mais tempo e recursos para sua formação. E vamos bancar esta implantação. Entendemos que esta é uma luta legítima de nossa classe, haja vista a ampliação das fronteiras da área de atuação do ORL. A nossa especialidade vem se expandindo e resgatando seu papel em importantes áreas como a foniatria, otoneurologia, os distúrbios do sono, cirurgia plástica facial, e base de crânio. E nós queremos retomar a atuação no diagnóstico da alergia também, uma área em que há enorme demanda para o otorrino e que consideramos de atuação legítima para a nossa especialidade. Então, não é possível ter uma formação de tudo que a otorrino oferece em apenas três anos. Em nenhum dos países de primeiro mundo, a residência em Otorrino tem menos de 4 anos. E todo mundo concorda, já conversei com dezenas de lideres de opinião e todos estão de acordo. Então acho que será uma questão de tempo para realizarmos este sonho possível e real.

- A questão do ROL de procedimentos enviados à ANS está entre uma das mais discutidas pelo profissional de ORL. Quais são os planos da nova diretoria para ampliar o número de procedimentos do ROL?

JELD: Na última reunião em que a ABORL-CCF convocou seus membros para discutir o ROL não chegamos a ter 10 pessoas presentes para falar sobre uma questão tão fundamental. Então a gente briga, briga, briga, mas na hora em que você chama o colega para cuidar de seus interesses financeiros, ele não pode largar o trabalho dele. É claro que a gente quer ampliar, mas precisa do apoio do otorrino. Precisamos de uma mobilização maior, para chegarmos a um consenso que seja prático e efetivo para nossas reivindicações. A gente tem um relacionamento excelente com a AMB, por meio do presidente da Associação Médica Brasileira, Dr. José Luis Gomes do Amaral, do Dr. Luc, que é da Diretoria Executiva da AMB. Temos ainda o Dr. Leonardo Silva, que é ORL da Santa Casa e é responsável pela Educação Médica Continuada da AMB e da APM. Estamos muito bem representados e com grande força neste que consideramos um momento ímpar para a nossa especialidade.

- O que podemos esperar para 2011 na área de cursos e eventos?

JELD: Na área de Educação Médica Continuada, existem três grandes propostas de cursos que já estão sendo preparados para este ano de 2011. São eles, o PRO-AR, que é o Programa de Atualização em Rinossinusite, que deverá ser feito diferentemente dos cursos itinerantes que vêm sendo realizados. Vamos escolher locais mais apropriados, como anfiteatros das faculdades, das associações médicas estaduais, dos hospitais, etc. Já temos estabelecida a parceria com a MSD que viabilizará a realização de 15 cursos que já estão formatados para atender regiões importantes e que precisam de um programa qualificado. Nosso objetivo é desenvolver um curso com padrão de excelência que abordará os temas mais atuais e os principais avanços que estão sendo discutidos pela ORL mundial em Rinossinusite. Tudo isso sem qualquer tipo de vínculo comercial com o nosso patrocinador, que está empenhado na realização de uma iniciativa puramente educativa.

Outra realização importante e que merece destaque é o "programa de gestão e marketing de consultórios", um projeto patrocinado pela EMS, que cederá profissionais especializados em administração, planejamento e marketing para melhorar o desempenho e a organização de um consultório de ORL. É uma iniciativa que visa realmente auxiliar os médicos nessa questão, que é fundamental para profissionalização administrativa. Nós levaremos um especialista em gerenciamento para diversas cidades do Brasil, e, estas aulas serão ministradas geralmente aos sábados.

Outro programa que já está bastante adiantado é o curso de especialização em próteses auditivas. Estamos providenciando a montagem de um aparelho de audição gigante, voltado exclusivamente para os médicos, que terão a oportunidade de conhecer detalhes e se atualizar sobre próteses auditivas, um tema de fundamental importância para a prática diária do otorrino e que muitas vezes é deixado a cargo dos fonoaudiólogos. Precisamos resgatar a nossa atuação também nessa área e vamos oferecer todos os subsídios para o aperfeiçoamento de nossos colegas no trato das próteses auditivas.

- Quais ações da gestão anterior deverão prosseguir?

JELD: Gostaria de fazer uma homenagem pessoal ao Dr. Ricardo Bento, por ter conduzido com primazia e excelência a sua gestão, que trouxe muitos avanços para a ABORL-CCF e colocou a nossa entidade em um patamar diferenciado. Pretendo dar continuidade a alguns projetos, como é o caso do Projeto Diretrizes, por exemplo. Eu tenho um plano de continuidade, que foi sugestão do Presidente da AMB e que eu acho excelente e inclusive já foi implantado na SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e deu certo. Cada serviço credenciado foi convidado a fazer uma diretriz, e então no fim de um ano eles conseguiram 40 diretrizes junto com a AMB, e fizeram um livro. Diretrizes são questões pontuais. Uma pergunta que vai ser respondida pode virar uma diretriz. Por exemplo: É correto você lavar o nariz com soro fisiológico em quem tem rinite alérgica? Pronto, é uma pergunta. Isto gera uma diretriz. O que precisa ser feito para responder? Levantar todos os trabalhos que tem no mundo sobre isso. E aí os especialistas que são experts em trabalhos vão analisar um por um e, baseado em tudo que foi levantado, vão dizer se é ou não válido usar o soro em quem tem rinite alérgica. Então, o que eu vou fazer? Vou convidar todos os serviços credenciados e vou dar uma pergunta, e caberá a eles fazer essa diretriz. E a AMB vai fazer isso com a gente. Portanto o serviço, faz todo o levantamento pra tentar responder aquela pergunta, e depois junto com o profissional da AMB, responderemos a essa diretriz.

Eu acho que todos os serviços bem classificados conseguirão fazer isso e, ao fim de 2011, teremos entre 30 a 40 diretrizes. O que é um grande avanço! E isso, sem abandonar o que já está em andamento. Nós vamos terminar o que está sendo feito, que são diretrizes mais amplas, sobre surdez, rinossinusite, entre outras. É compromisso terminar o que está começado, mas a minha idéia é fazer diretrizes pontuais. Cada serviço credenciado será responsável por responder uma pergunta pontual dentro da ORL.

- Para finalizar, como estão as obras na nova sede da ABORL-CCF?

JELD: Pretendemos abrir as portas de nossa nova casa na véspera do Mini Fórum, que acontecerá nos dias 11 e 12 de fevereiro em Campinas, lá na EMS. Será o Mini Fórum de todos os novos eleitos, todos os que foram escolhidos nas comissões, a diretoria executiva e o conselho administrativo e fiscal, onde nós iremos discutir a programação destes 3 anos. Então, a minha ideia é inaugurar a sede um dia antes, porque aí virá todo mundo para cá, e faremos uma grande recepção nesta data. Mas eu ainda não sei se teremos tempo hábil para isso. O engenheiro do projeto acha que vai dar tempo de fazer a inauguração. Queremos começar o ano com o pé direito, com casa nova!

 

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