Prof. Dr. Ricardo Bento

01/02/2010

A primeira entrevista do ano do site da Associação traz o Presidente Prof. Dr. Ricardo Bento. Ele comenta sobre os planos e metas para 2010, os projetos em andamento, as eleições para a nova diretoria e sobre o polêmico Ato Médico, lei que deve entrar em vigor ainda este ano

O Presidente recebeu nossa reportagem no dia 20 de janeiro, em sua sala de Professor Titular da disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo (SP).

 
O ano de 2009 foi, sem dúvida, um dos mais especiais da história da ORL nacional e também da ABORL-CCF. O que esperar de 2010?
Prof. Dr. Ricardo Bento - Realmente o ano de 2009 foi muito virtuoso para a Associação, mas isso faz, obviamente, com que continuemos o que já foi iniciado em 2009 e acho que este ano teremos a consolidação de tudo. A ABORL-CCF entrou na Academia Ibero-Americana (AIA), que é um pool de sociedades latino-americanas e da península ibérica, o que vai consolidar nossa internacionalização, que começou com o Congresso Mundial (em São Paulo, em junho de 2009), e foi nele que tivemos o pontapé inicial para nossa entrada na AIA.

 
Teremos também a nova formulação política da Associação, com as eleições que vão enfatizar a democracia da mesma. Todas as comissões permanentes serão eleitas, não só o Presidente, além de que 2010 será um ano importante porque todos os sócios poderão escolher quais as pessoas que vão compor as comissões no futuro, ou seja, os sócios vão dar o rumo à Associação daqui para frente. Temos que investir, também, na área de ensino à distância que já começou com o Congresso Virtual ano passado, um sucesso, e vamos dar continuidade a esse projeto, sem dúvida.

Outro destaque é que estamos fazendo um trabalho muito intenso com a AMB na questão das tabelas e honorários, uma ânsia de todos os médicos otorrinos. Temos o Projeto Diretrizes junto à AMB, e a reformulação da tabela ANS que foi proposta por nós e deve ser aprovada em 2010. Terá início, também, o sistema de Congressos Brasileiros anuais, que antigamente era bianual, e a nova parceria com as chamadas supra-especialidades, definida no final de 2009, em que vamos poder entrosar essas sociedades dentro da Associação.

Existe algum projeto especial que será iniciado em 2010, além dos já mencionados?
RB - Sim, com vistas ao Ministério da Saúde e à ANS. Temos os projetos de epidemiologia, realizados ano passado e que estão em curso, onde este ano teremos as respostas. Um novo grupo está sendo escolhido para mais três trabalhos que serão apoiados pela ABORL-CCF para termos uma resposta sobre as incidências das doenças otorrinolaringológicas no Brasil, algo que não existe.

Você acha que o legado do Congresso Mundial de 2009 para a especialidade será refletido em 2010 ou ele já vem numa ascendência?
RB - O legado já vem, pois o Congresso mostrou para o mundo que o Brasil é uma grande potência na ORL, que temos capacidade de organizar eventos científicos importantes, além de hoje termos o Dr. Paulo Pontes como Presidente da IFOS. Ele pretende fazer várias modificações nesta entidade, que tinha ações muito restritas aos congressos, e a ABORL-CCF vai apoiá-lo financeiramente para que ele possa fazer ações internacionais e promover ainda mais o Brasil no cenário mundial.

 
Este ano teremos a prova para certificar otorrinos a atuar na área de Cirurgia Crânio-Maxilo-Facial, um dos muitos resultados das conquistas de 2009. Quais outros podemos destacar em 2010?
RB - Outras áreas de atuação e novas estão sendo francamente apoiadas pela ORL, não novas, mas que estavam um pouco esquecidas, como a Foniatria, que teve um evento em dezembro último, e a Otoneurologia, na qual estamos investindo muito porque, de certa forma, existe uma ameaça de que ela passe para outra especialidade, como a Neurologia, por isso, queremos reforçar essa atuação do otorrino.

Você acha que essa área deve ser mesmo específica do otorrino ou o neurologista pode atuar também?
RB - Acho que ambos podem atuar, mas o otorrino, historicamente, é mais preparado para isso, portanto não é possível perder essa área, caso contrário ele vai acabar perdendo-a como perdeu outras. Existe também o convênio com a Sociedade de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, para que os otorrinos possam fazer o exame de título em CCP. Perceba que todas são ações vindas deste mandato.

 
Como será a continuidade dos trabalhos?
RB - Com a nova forma da Associação em que o presidente é trocado a cada ano, a continuidade não deve ser feita pelo Presidente, mas sim pelas Comissões, que terão a força da Associação e serão mais perenes, além de independer politicamente. Antigamente era o Presidente que assumia e indicava todos os componentes das Comissões, agora os componentes serão eleitos pelos associados. Com isso, o Presidente será uma figura executiva, mas muito mais figurativa e não tão centralizado.

Todos os associados poderão votar?
RB - Sim, todos poderão votar e concorrer também, algo que os associados precisam ficar atentos, pois esse será um ano importante. Todos vão escolher as pessoas que irão compor as Comissões, não será apenas o Presidente. Tudo será feito por meio de voto eletrônico, pela internet, onde o processo será controlado por empresas especialistas em voto eletrônico e auditoria.

Quais suas expectativas para a nova diretoria que assume no final deste ano?
RB - Acho que esses processos e a consequente eleição vão fazer a ABORL-CCF dar um "estouro" muito grande, porque é a primeira das Sociedades que está fazendo isso. Não existe nenhuma outra Sociedade médica, nem a AMB, que faz esse tipo de coisa, com uma administração democrática. Hoje a ABORL-CCF é tão grande que funciona quase que como uma grande empresa, e com isso vão surgir novos negócios e recursos financeiros, captação de patrocínio, vendas de hotéis entre outros, por isso pretendemos que seja o grande salto da ABORL-CCF pelo menos para essa década, a segunda desse novo século. 

Para finalizar, este ano deve ser aprovado o Ato Médico, lei que vai regulamentar o exercício da Medicina, porém, muitos (os não-médicos) são contra. Qual sua opinião?

RB - Hoje a Medicina é multidisciplinar para o tratamento das pessoas, o médico, sozinho, não consegue fazer tudo. Ele tem a atuação como médico e formação profissional para isso, as outras profissões têm que existir e existem n profissões ligadas à área da saúde como enfermagem, fonoaudiologia, psicólogos, e todas são muito importantes, pois sem eles é impossível fazer um tratamento médico pleno. Agora, a única profissão que não era regulamentada era o médico. Como é uma profissão muito antiga, que vem de séculos e séculos, nunca tinham discutido o que o médico deve ou não fazer, já as outras não. Como foram criadas há menos tempo, já estipularam o que eles podiam fazer.

Faltava a regulamentação do médico, agora tudo tem que vir da formação, por isso o Ato Médico foi amplamente discutido pela sociedade, depois pelo Congresso e há mais de 10 anos vem sendo discutido. Essa lei é para a proteção das pessoas, dos indivíduos, da sociedade, para que você não tenha pessoas sem formação para fazer determinadas coisas, obviamente nós, médicos, somos amplamente favoráveis a essa lei.

 

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