Dr. Alexandre Hamam

08/12/2009

- "Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho, e sempre estive disposto a realizar generosas ações; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos"

Esta frase de Beethoven, escrita no seu testamento de 1802 descreve a profunda tristeza que ele sentiu logo após perder sua audição. O senhor, como otorrinolaringologista, passou a se interessar mais por esse gênio da música por causa disso ou não?
Dr. Alexandre Hamam: Na verdade, desde criança ouvia as músicas de Beethoven tocadas na vitrola lá de casa, pois meu pai era um grande admirador deste compositor. Desde os mais antigos LPs de 78 rotações aos mais "modernos" de 33 RPM, Beethoven sempre esteve presente em minha memória musical. Ao decidir por me especializar em ORL, deparei-me com inúmeros pacientes deficientes auditivos que mal conseguiam falar o próprio nome, quanto mais ouvir uma nota musical. Lembrei-me de Beethoven durante a minha residência médica e comecei lá minha pesquisa, tentando responder a inquietante pergunta "Como pode um cérebro que não ouve, compor músicas tão maravilhosas?". Foi então que encontrei algumas respostas, que me levaram a outras inquietantes perguntas. Cada resposta encontrada me trouxe novos questionamentos, e assim tem sido nos últimos 25 anos.


- Quais as características de Beethoven que mais lhe fascina?
AH: O ser humano é fascinante como um todo, mas alguns nascem com dons especiais que os tornam diferentes e especiais. A capacidade de fazer música sem ouvir é uma característica ímpar, mas encontramos na história da Humanidade alguns outros exemplos deste tipo, tais como a perda de visão progressiva de Claude Monet ou as deformidades das mãos do nosso "Aleijadinho". Superar uma deficiência física requer grande disposição e energia, mas Beethoven enfrentou bem mais do que isto. Além da surdez, outros problemas de saúde o afligiam enormemente. Diarreia, "reumatismo", cálculo renal e ascite contribuíram sobremaneira para o desenvolvimento de um quadro de saúde fragilizado. Estas questões clínicas aliadas à revolta contra o pai, a perda da mãe, as frustrações amorosas, as brigas com os editores, a tutela do sobrinho, entre outras, proporcionaram enorme desgaste emocional que o levaram ao isolamento. No entanto, justamente esta solidão gerou a dedicação, que por sua vez promoveu a superação e a criação de obras cada vez melhores. Isto é fascinante!


- Nesta palestra sobre o músico, o que a plateia vai encontrar de novo?
AH: Pretendo mostrar o momento histórico em que viveu Beethoven e situá-lo dentro do contexto político, científico, filosófico, artístico e social da época. Vou fazer um corte transversal na história da humanidade e mostrar como era o mundo do compositor. Alguns músicos irão ilustrar a palestra com trechos de suas principais obras tocadas ao vivo. Os colegas Otorrinos terão a oportunidade de conhecer melhor a história de sua deficiência auditiva e vou mostrar como seriam as "audiometrias" de cada fase de sua surdez.


- É inusitado um médico proferir uma palestra sobre um músico. Como o senhor espera que seja a receptividade do público?
AH: Espero que seja boa, pois tentei fazer o melhor possível, compilando conhecimento atualmente disponível em uma aula de pouco mais de 1 hora. Há quem goste mais dos aspectos históricos, outros das questões médicas e alguns vão só pelas músicas. Conforme o público-alvo, direciono a abordagem de forma mais específica da parte médica ou mais ampla. Neste caso, será mais ampla, pois a palestra é aberta a todos os interessados em cultura geral.


- É a primeira vez que o senhor faz uma palestra sobre esse assunto? Se não, quando começou?
AH: Começou há mais de 10 anos quando ainda era Professor da Faculdade de Fonoaudiologia da PUC, com a intenção de estimular as futuras fonoaudiólogas a trabalhar melhor com a questão da surdez e reabilitação auditiva. Não tive muita preocupação de situar a questão auditiva dentro do contexto histórico da época. Periodicamente sou convidado a falar para pequenos grupos de médicos ou não sobre o tema, mas senti que falar de Beethoven sem mostrar sua música era como falar de Claude Monet sem mostrar nenhum quadro. Em julho de 2008, fui convidado pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz para falar sobre o tema. Confesso que "tremi nas bases". Falar sobre um alemão para alemães, em Hospital alemão, era um desafio e tanto. Convoquei uns amigos músicos que conhecia e preparamos algumas peças musicais. Foi fantástico! "Maravilhoso", segundo a plateia e a Diretoria do Hospital.


- Quais os assuntos que o associado ABORL-CCF vai poder desfrutar na palestra para seu lado pessoal e profissional?
AH: Além da questão cultural propriamente dita, a noção de superação é fundamental em Medicina. Os agravos à saúde consomem grande energia do paciente e, muitas vezes, do próprio profissional médico. Não basta dar o remédio certo ou fazer a melhor técnica cirúrgica se não transmitirmos ao nosso doente a segurança, o carinho e a esperança. Todos têm problemas para enfrentar e cada problema é um novo desafio que exige ação e superação. Tenho um quadro de Beethoven bem ao lado de onde sentam os pacientes no meu consultório. Muitas vezes, percebo tristeza ou indignação naqueles que perderam parte de sua audição e acharam que sua vida se perdeu também. Basta mostrar o quadro que muitos deles adquirem esperança e energia para se tratar. Do outro lado da sala tenho duas reproduções de Monet (que poucos sabem que morreu quase cego).


- Para finalizar, defina Beethoven em uma palavra (ou frase, se uma palavra for pouco).
AH: Lembrando Helen Keller, "A cegueira afasta os seres humanos das coisas. A surdez afasta o ser humano de outro ser humano". Beethoven foi afastado dos seres humanos pelo destino para nos dar o melhor de si: sua música e seu exemplo de superação.

 

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